A VELHA CASA DE MADEIRA

“Naquela casa de madeira
Morava uma velhinha
Que vivia, coitadinha
Sem ninguém para conversar (…)”

Classificação etária m/ 3 anos   Duração 60min.

Certo dia, aparecendo do nada, um velho vem contar-nos acerca da sua infância, quando encontrou, escondida na sua casota, uma velha rabugenta.

A velha resmunga sozinha: nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem… e ignora a criança, a curiosidade daquele menino invade a sua vida tranquila e isolada, entregue a fazer e refazer os fios no seu fuso, satisfeita com os animais que a cercavam e a acompanhavam naquela melodia: nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

A cada dia que volta, a velhinha atira-lhe algo para o afastar – um nabo, uma maçã, um rolo de fios – está feita a ligação. O rapaz e um amigo seguem o fio que lhes abre enfim a porta da velha casa de madeira….

Começa então uma longa conversa com a velhinha. Todos os dias pela manhã lá estavam as crianças e todos os dias pela manhã a velha rabugenta lá esperava por elas. A velha conta o seu passado, e cada história é uma viagem na máquina do tempo.

Texto e Encenação José Caldas
Cenografia, Adereços e Figurinos Andrew Purvin e Ruby Gibbens
Direção Musical Mary Keith
Desenho de Luz Paulo Duarte
Interpretação Abel Duarte, Paulo Duarte e Rebeca Cunha
Construção de cenários e adereços Carlos Cal e Maria da Conceição Almeida
Costureiras Capuchinhas CRL e Maria do Carmo Félix
Fotografia e video Lionel Balteiro
Tradução Graeme Pulleyn
Direção de Cena Abel Duarte
Direção de Produção e Comunicação Paula Teixeira
Assistência à Produção e Comunicação Guida Maria Rolo
Estagiária Carolina Sequeira
Agradecimento Jorge Braga

O TEXTO

O Teatro do Montemuro desafiou-me a escrever um texto sobre o encontro entre um velho e uma criança e os conflitos que dele surgissem. Desafiei-os a ser um encontro entre um menino e uma velha senhora. E assim foi.
Inspirado no realismo mágico de Ray Bradbury, meu autor do coração; na minha poeta predilecta Cecília Meireles e o seu jogo encantatório de palavras; no humor truculento dos Contos Tradicionais Portugueses e nas conversas com senhoras idosas fui compondo este texto. Varias sequências que foram se entretecendo com a delicada música Mary Keith – palavras musicais, música poética. Um texto evocativo da minha infância e da intimidade com a minha avó, as suas estórias e – (…)“ A Estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a História. A estória, as vezes, quer-se um pouco parecida à anedota.(…) João Guimarães Rosa – a sua insubmissão ao poder patriarcal. Assim este texto está mais próximo da estória – os casos narrados pela velha senhora – “máquina do tempo”. Ela viaja pelo passado sem nenhuma lógica histórica. Na verdade são apenas fragmentos de poesia e de transcendência, trincadas na maça da vida, das memórias e das sensações.
As visitas do rapaz a esta grande mãe isenta de paternalismo é um itinerário iniciático com o passado, o presente e um futuro para além da morte – uma viagem pelas estrelas com a misteriosa poesia de Jorge Sousa Braga.

A ENCENAÇÃO

Um teatro para a infância com a confiança e o respeito pela inteligência do seu público. Um trabalho ao ritmo de várias leituras que poderão interessar também os seus acompanhantes – os adultos. Sem concessões ao infantilismo ou a papa-feita.
Encontrei nos actores esta ressonância: um teatro para um público jovem, mas antes de tudo Teatro.
Três actores em cena, a representar Tal como no “faz de conta” das crianças – estas precursoras do próprio teatro com o seu jogo distanciado: “agora faço de velha”, “agora sou o menino”, “agora faço de velho”…
Assim uma jovem actriz faz de conta que é uma velha senhora fugindo a sete pés aos clichês. Dois actores de 40 anos entram também neste jogo e fazem-se de meninos.
A cenografia imaginada com o Purvim e a Ruby torna-nos viajantes nesta máquina do tempo onde a velha senhora habita. Passado, presente e futuro entrelaçam-se no jogo extra quotidiano pontuado pela presença do actor, sonoplasta, iluminador, músico e projecionista deste cinema transcendental. Deixamos tudo como um desafio a ser decifrado pela imaginação dos jovens espectadores .

José Caldas

Fotografias e vídeo: Lionel Balteiro